Vírus Carinhoso apresenta “Karkará”, álbum sobre ancestralidade, território e paternidade

Com 12 faixas e participações de Urias, Vandal, Sued Nunes e outros artistas, projeto conecta vivências pessoais, símbolos adinkras e diferentes sonoridades afro-diaspóricas

Vírus Carinhoso apresenta “Karkará”, novo álbum autoral com 12 faixas lançado pela Natura Musical. Partindo das vivências do artista, cria do subúrbio ferroviário de Salvador, o trabalho atravessa temas como ancestralidade, território, paternidade, luto, fé e transformação.

Musicalmente, o disco aproxima referências como afrobeats, pagodão baiano, ijexá, samba-reggae e rap, enquanto sua construção conceitual e visual parte de uma pesquisa sobre os adinkras, símbolos de origem Akan associados a diferentes conceitos e valores.

“Karkará” transforma os adinkras em fio condutor do álbum

O álbum reúne participações de Sued Nunes, Vandal, Chibatinha, Urias, Celo Dut, Aguidavi do Jêje e Novíssimo Edgar. A produção musical é assinada por Vírus Carinhoso, Zamba, Salamanka, Dactes, Silas Barreto, Tiago Simões, Gui Nakata e João Meirelles.

A pesquisa sobre os adinkras foi aprofundada durante a criação de “Karkará” e passou a orientar tanto os conceitos presentes nas músicas quanto parte da identidade visual do projeto. Ao longo das 12 faixas, diferentes símbolos ajudam a construir reflexões sobre existência, espiritualidade, memória, resistência e transformação.

Para Vírus Carinhoso, o álbum também representa uma passagem entre diferentes momentos de sua própria trajetória.

“Karkará, para mim, é a conclusão de um ciclo e o começo de outro. Para mim, é um resultado desses cinco anos que eu vivi desde a pandemia para cá, um pedaço de mim que eu estou expondo no mundo. Além de ser uma grande porta para novas possibilidades de existência”, afirma o artista.

A faixa-título, última composição feita para o disco, é justamente a responsável por abrir o projeto. Escrita por Vírus e João Nascimento, “Karkará” trabalha a ideia de deixar para trás karmas, opressões, mazelas e pensamentos limitantes, dando início ao percurso de transformação que conduz o álbum.

Ancestralidade, território e existência atravessam “Karkará”

Essas reflexões ganham diferentes perspectivas ao longo do trabalho. Em “Cada Criação”, Vírus parte do adinkra Abode Santann para falar sobre a singularidade de cada existência. Já “Quando o Negro Voa” aborda a mortalidade de jovens negros e coloca em discussão a distância entre sobreviver e ter condições de efetivamente viver e projetar o próprio futuro.

O território aparece de forma mais direta em “Pixo-Corpo-Grafia”, construída a partir das experiências do artista na rua e da pichação como registro das vivências no espaço urbano. A faixa se conecta ao adinkra Mmere Dane, relacionado à passagem do tempo e à transformação.

Em “Aya”, parceria com Urias, o símbolo que dá nome à música serve como ponto de partida para falar sobre aquilo que não se encaixa em formas ou padrões determinados pela sociedade.

A espiritualidade, por sua vez, ganha espaço em “Tenha Fé”, com Chibatinha e Celo Dut. A música se relaciona ao adinkra Gye Nyame e coloca a fé no centro das reflexões sobre existência presentes no disco.

Paternidade conecta passado e futuro no álbum de Vírus Carinhoso

Vírus e Joia – Crédito: Maneson Conceção

Um dos eixos mais pessoais de “Karkará” aparece na relação de Vírus com a paternidade e com aquilo que atravessa diferentes gerações.

Em “Sunsum”, com Sued Nunes, o artista parte de um adinkra associado àquilo que se herda do pai para revisitar sua experiência de paternidade a partir do lugar de filho. A faixa também dialoga com sua devoção a Xangô, identificado por Vírus como seu pai de cabeça.

Já em “Carta aos Ancestrais”, primeiro single apresentado do álbum, a perspectiva muda. Vírus assume o lugar de pai e dedica versos ao filho, Joia, aos ancestrais que já partiram e àqueles que ainda nascerão. Com participação do Aguidavi do Jêje, a música reforça a ideia de ancestralidade como uma continuidade que atravessa gerações.

O percurso segue por faixas como “Sem Medo”, ligada à ideia de ação e enfrentamento; “Fingem”, que utiliza a imagem da semente para abordar resistência e questões ambientais; e “Dame-Dame”, parceria com Novíssimo Edgar construída como uma partida em que os dois artistas realizam movimentos e respostas dentro da própria composição.

“Karkará” encerra percurso com Vandal em “Letrado Baiano”

O álbum chega ao fim com “Letrado Baiano”, faixa com participação de Vandal associada ao adinkra Nkonsonkonson, símbolo relacionado à unidade, comunidade e conexão.

O encerramento retoma uma das ideias que atravessam “Karkará”: a relação entre experiências individuais e uma história coletiva que começa antes do próprio artista e segue para além dele.

Essa pesquisa também aparece na identidade visual do projeto. A capa apresenta uma pintura em tela inspirada pelos símbolos estudados durante o processo criativo. No centro da composição, uma escultura de pássaro aparece com o ventre aberto, de onde surge a cabeça de Vírus Carinhoso. Na contracapa, os símbolos são relacionados às respectivas faixas.

Com predominância de preto e branco e aplicações em vermelho, a direção visual amplia para as imagens os mesmos temas trabalhados nas músicas, conectando corpo, território, memória, ancestralidade e transformação.

“Karkará” tem patrocínio da Natura Musical e do Estado da Bahia, por meio do Fazcultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda, e já está disponível nas plataformas digitais: ouça aqui!

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