
Foi necessária uma década construindo uma trajetória musical conhecida pela mistura de gêneros e por letras que parecem cartas autorais, confissões ou conversas em um divã, para que Luiz Lins apresentasse “Os Canalhas Também Envelhecem”, seu segundo álbum de estúdio, um trabalho marcado com amor e a ausência dele, além das marcas deixadas pelas próprias escolhas.
O disco celebra os dez anos de carreira do artista pernambucano e representa uma nova fase de sua produção. No álbum, rap, R&B, música nordestina, pop e referências internacionais se encontram em composições que exploram melodias e narrativas sobre amadurecimento, ressignificação da culpa, busca pelo desejo e, principalmente, a coragem e a consciência de viver as consequências das próprias escolhas.
Um personagem entre erros: Luiz Lins entre o amadurecimento e a reconstrução
Nos últimos anos, Luiz Lins construiu uma identidade musical transitando em diferentes gêneros e sonoridades. “Em Os Canalhas Também Envelhecem”, essa característica ganha uma nova dimensão, já que o artista apresenta uma narrativa que acompanha a trajetória de um único personagem, mas que também representa muitos homens que passaram pela dor de perder ou deixar um amor se perder.
O personagem apresentado no álbum que podemos classificar como conceitual, carrega anos de repetição de padrões, assim vê a necessidade em olhar para o seu próprio passado e compreender como o tempo transforma aqueles que ocuparam esse lugar de “canalha”.
Para Luiz Lins, a essência do disco está no movimento de reconhecer e aprender a lidar com os erros. A faixa que encerra o projeto representa esse sentimento para o artista: “Ela representa até melhor o personagem central do disco, nesse lugar de admissão, vulnerabilidade e humildade diante do outro. Ela reúne muito do sentido que atribuo ao título, o remorso, o autorreconhecimento, a auto-observação e a capacidade de olhar para o passado de forma mais madura. No fim das contas, para mim, é uma música sobre perdão, é sobre o autoperdão, fazer as pazes consigo mesmo em relação à situação e seguir em frente sem esse peso”, afirma Luiz Lins.
Luiz abraça a realidade e a fantasia
O álbum nasce de vivências e observações pessoais, mas Luiz explica que a construção da narrativa não segue uma lógica documental ou linear. Quando se trata de sentimentos e relações amorosas, a realidade é transformada pela imaginação, permitindo que a escrita não tenha compromisso apenas com os fatos, mas principalmente com aquilo que foi vivido e sentido: “Tudo é autobiográfico, mas a forma como isso é tratado e retratado não é jornalística. Acredito que o ser humano precisa da fantasia, inclusive para lidar com as dores da vida e tudo ali é muito verdadeiro, mas representa um momento que está em constante respiração. Vejo o exagero e a fantasia como ferramentas incríveis para acessar essa pureza dos sentimentos”, conta o artista.
A maneira como Luiz Lins entende a própria criação é outra característica que dá norte na busca por sentimentos mais profundos e pela honestidade em se vulnerabilizar. Para ele, a arte nasce das emoções mais intensas: “A questão é que você se move pela quantidade de energia vinculada à forma como está se sentindo. Geralmente, os sentimentos mais puros são os mais carregados de energia: grandes alegrias e, principalmente, grandes dores. Como a arte expressa aquilo que mais te move, é isso que acaba ficando impresso, em grande parte, nas feridas profundas”, completa.
Uma viagem musical por diferentes sentimentos e culturas
A diversidade sonora de “Os Canalhas Também Envelhecem” mistura trap, rap, R&B, bachata, brega, forró, sertanejo, música mexicana e elementos eletrônicos, ampliando os limites da música popular brasileira e criando uma identidade própria para o projeto.
Todo o processo envolveu uma construção com o cuidado em compreender não apenas os gêneros musicais, mas também as culturas que deram origem a eles. Para Luiz Lins, a pesquisa musical é parte fundamental da criação: “Gosto muito de entender de onde as coisas vieram musicalmente, de fazer paralelos não só entre gêneros musicais, mas também entre as culturas dos lugares de onde eles vêm. De vez em quando escolho um país aleatório e procuro conhecer a música de lá. Tento entender o que é mainstream naquele lugar, como eles fazem música e até como é a situação política do país”, explica.
Entre as referências que mais influenciaram o álbum está a música mexicana. O artista encontrou conexões entre essa produção e a música brasileira, especialmente com o sertanejo tradicional: “Às vezes chego a lugares muito confortáveis, como foi com o México, onde consegui fazer vários paralelos interessantes com a música brasileira, principalmente com o sertanejo raiz, mais tradicional. Conheci artistas incríveis, dos mais antigos aos mais atuais, como Pedro Infante, Vicente Fernández, Grupo Firme, Grupo Codiciado e Karim León”, conta o artista.
Toda essa influência latina aparece com mais força na faixa “O Pior Cego”, uma das faixas mais experimentais do projeto: “Nessa faixa isso é mais evidente, mas praticamente todas as composições do álbum nasceram desse processo. Se não surgiram exclusivamente do estudo da música mexicana, foram fortemente influenciadas por ela e pelo mesmo método de pesquisa. Passo um período ouvindo, entendendo e absorvendo o que outras pessoas da minha idade, negras e periféricas, também estão fazendo em outros lugares do mundo, sobretudo nos países latino-americanos”, explica.
Um olhar de fora para o que vem de dentro
Entre todas as faixas do disco, a que mais desafiou Luiz Lins foi a primeira, que carrega o mesmo nome do álbum. Para o artista, o processo exigiu um exercício de humildade: “Incrivelmente, a música mais desafiadora do disco acabou sendo justamente a primeira, ‘Os Canalhas Também Envelhecem’. Os desafios foram psicológicos, precisei aceitar a faixa humildemente como ela é. Não só pelo peso de fazer uma música que carregaria o nome do álbum”, afirma.
A faixa também representa uma quebra sonora dentro do projeto: “É a única que traz um ritmo mais acelerado, amo isso nela. Não foi algo tão natural assim. É uma experiência muito bonita que você vive criando coletivamente: entender, com humildade, o que é melhor para o trabalho e reconhecer que o seu ego nunca pode estar acima disso”, explica Luiz sobre a faixa que dá início ao trabalho.
O caminho entre a expressão como arte e a vulnerabilidade do indivíduo
Ao longo da carreira, ele utilizou a música como uma ferramenta de transformação e suas letras trazem contradições humanas e sentimentos que muitas vezes são difíceis de admitir: “Quero muito que a minha música seja para os outros aquilo que ela é para mim, uma ferramenta para explorar não só o que ainda é desconhecido dentro de mim, mas também aquilo que não me permita explorar, o que me incomoda encarar. Existe uma força muito grande na vulnerabilidade de se enxergar dessa forma. Mais do que tudo, as pessoas não entendem a graça que é poder sentir, a bênção que é se vulnerabilizar”, afirma o artista.
Para ele, evitar esses sentimentos pode impedir processos importantes de transformação: “Acho que se endurecer é não processar, e esse é um caminho perigoso. A gente deve aproveitar a oportunidade de estar vivo para sentir ao máximo, se enxergar, se reconhecer e crescer com isso. Se você nunca escoa essas emoções, se leva tudo a sério demais, acaba vivendo uma vida amarga. Se você não tem força suficiente para se ver fraco, qualquer lapada que a vida der faz você cair”, completa.
A curiosidade é também um bússola
Questionado sobre o que o mantém ativo para inovar dentro da música, Luiz Lins afirma que a curiosidade e a vontade de aprender continuam sendo seus principais combustíveis: “Me manter apaixonado pelo que faço e nunca achar que aprendi o suficiente. Cada trabalho novo me oferece uma direção diferente e a oportunidade de me enxergar sob uma nova perspectiva, como profissional e como ser humano. Existe o exercício de humildade que essa caminhada me obriga a fazer”, conta o artista.
Com “Os Canalhas Também Envelhecem”, o artista transforma cada referência em parte de uma narrativa maior sobre erros, amadurecimento e reconstrução. O artista com dez anos de carreira ainda está em processo de experimentação, mantendo como principal característica a sinceridade emocional que acompanha e cria obras desde o início de sua trajetória.