Cabês retorna após quase uma década e revisita 20 anos de hip-hop em “Ciclos”

Depois de quase uma década sem lançar um álbum autoral, Cabês retoma sua trajetória como MC com “Ciclos”, seu quinto disco de carreira, lançado nesta sexta-feira (25). Construído ao longo de quase três anos, o projeto reúne 12 faixas e revisita mais de duas décadas de caminhada do rapper e produtor curitibano dentro do hip-hop.

O álbum marca um retorno às bases para um artista que, nos últimos anos, esteve principalmente dedicado à produção musical. Com o boom bap como espinha dorsal, “Ciclos” transforma experiências pessoais, mudanças profissionais e os diferentes momentos da carreira de Cabês em uma narrativa sobre amadurecimento, reconstrução e permanência.

🎧 Ouça “Ciclos” na sua plataforma de áudio favorita.

“Ciclos” marca o retorno de Cabês à carreira autoral

A relação de Cabês com o hip-hop começou ainda no final dos anos 90. O artista começou a rimar em Curitiba em 1999, passou a produzir beats no ano seguinte e, em 2004, fundou o estúdio Track Cheio. Desde então, construiu uma trajetória dividida entre o trabalho como MC, produtor musical e engenheiro de som.

Antes de “Ciclos”, Cabês lançou trabalhos como “Todo Dia É Assim” (2009), “Pra Onde As Pessoas Vão” (2012), “Revolução Constante Evolução Permanente” (2013) e “O Tempo é Agora” (2017). Nos bastidores, também trabalhou com artistas como Karol Conká, Yago Oproprio, Coruja BC1, Rapadura, Lívia Cruz, Zudizilla, Matéria Prima e Max B.O.

A mudança para São Paulo, em 2018, abriu um novo capítulo. Cabês colocou a carreira como MC em segundo plano para se estabelecer profissionalmente como produtor musical na capital paulista. Anos depois, as experiências acumuladas nesse período se tornaram parte importante do novo álbum.

“Ciclos representa pra mim essa eterna transformação que o ser humano passa durante a vida. São vários ciclos de crescimento, aprendizado, superação e assimilação de processos. Minha mudança para São Paulo também foi um deles: precisei amadurecer e reaprender a navegar certas situações, agora vivendo no berço do rap e no centro econômico do Brasil. Esse disco nasce muito do que aprendi atravessando tudo isso”, explica Cabês.

De 60 músicas às 12 faixas de “Ciclos”

O caminho até a versão definitiva do disco foi longo. Durante aproximadamente três anos de composição e produção, Cabês criou cerca de 60 músicas antes de selecionar as 12 que formam “Ciclos”.

Musicalmente, a escolha foi retornar ao ponto de partida. Assim como em seu primeiro álbum, “Todo Dia É Assim”, o boom bap ocupa o centro da produção. Elementos ligados às bases do hip-hop, como DJs e scratches, também aparecem ao longo do trabalho.

Um dos exemplos é “História sem Fim”, faixa com participação de Rashid. O repertório alterna momentos mais enérgicos com passagens densas e introspectivas, enquanto “Olhos nos Olhos” aproxima o disco do R&B.

“Eu quis voltar para a essência. Vim do skate, conheci o hip-hop na rua, passei pelo break, pelo graffiti e depois cheguei ao rap e à produção musical. Tudo isso formou a maneira como eu enxergo a música. Depois de navegar por muitos estilos como produtor, senti que era a hora de fazer novamente um disco de boom bap e reencontrar o ponto de partida da minha própria história, mas com toda a bagagem que adquiri até aqui”, conta.

O skate também aparece como uma das referências para a maneira como Cabês enxerga os processos abordados no álbum. Segundo o artista, aprender a cair, levantar e tentar novamente acabou ultrapassando o esporte e influenciando sua relação com a vida e com o próprio hip-hop.

“Ciclos” é dividido entre essência, reflexão e inspiração

A narrativa do álbum é organizada em três atos: Essência, Reflexão e Inspiração.

O primeiro reúne ideias de motivação, energia, fundamento e missão. O segundo conduz o trabalho para questionamentos, vulnerabilidades e momentos de introspecção. Já o terceiro encerra o percurso a partir de temas como fé, esperança e a disposição de continuar em movimento.

A construção dialoga com o interesse de Cabês por filosofia, espiritualidade, religiões comparadas e história. Referências como Kintsugi, Ouroboros e a Roda de Samsara aparecem associadas a conceitos de reparação, repetição, impermanência e transformação.

Esses elementos também chegaram à identidade visual do projeto. A capa de “Ciclos” foi criada por Fabrício Faustin e Pietro Rezende, do Balaclava Studio.

“A gente tem a impressão de que a vida acontece em linha reta, mas eu enxergo muito mais como uma espiral. Quando você não aprende determinada lição, muitas vezes acaba encontrando aquela situação novamente até conseguir atravessá-la de outra forma. Ciclos fala desse processo: entender o que aconteceu, carregar o aprendizado e seguir para uma nova etapa um pouco mais preparado do que antes”, afirma.

Cabês reúne encontros construídos dentro do hip-hop

Além de olhar para diferentes momentos da própria vida, Cabês transformou “Ciclos” em um reencontro com artistas que fizeram parte de sua caminhada.

O disco conta com participações de Rashid, Matéria Prima, Bianca Hoffmann, Jamah, DJ Marco e DJ Vitonez. Na produção, aparecem parceiros como Nave Beatz, Skeeter Beats e Lemoskine, além de outros músicos e produtores envolvidos no projeto.

Parte dessas conexões atravessa anos. DJ Vitonez, por exemplo, mantinha uma loja de CDs e discos na Galeria do Rock onde Cabês vendeu algumas das primeiras caixas de “Todo Dia É Assim” em São Paulo, em 2009. Matéria Prima mantém uma relação artística com o rapper desde a década de 2010, enquanto Rashid é contemporâneo e amigo construído nos caminhos do próprio hip-hop.

“Eu fiz questão de trazer pessoas que são parceiras de música, mas também de vida. Tem gente nesse disco que acompanha minha caminhada há muitos anos, que me recebeu quando eu vinha para São Paulo, que incentivou meu trabalho e que faz parte da minha relação com o hip-hop. Então as participações também ajudam a contar esses ciclos. Não são encontros aleatórios”, explica.

O lançamento ainda é acompanhado por um short film em formato de manifesto, produzido pela Sarça Filmes, além de lyric videos para as faixas.

Depois de anos concentrado principalmente no trabalho de produção, Cabês retorna ao formato álbum olhando para o lugar de onde partiu sem tentar simplesmente reproduzir o passado. Em “Ciclos”, o boom bap funciona como elo entre diferentes fases de uma trajetória iniciada há mais de duas décadas e que agora ganha um novo capítulo.

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