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Luiz Lins e a vulnerabilidade dos sentimentos em “Os Canalhas Também Envelhecem”

Em novo álbum, o artista revisita e convive com as próprias versões do passado, transformando antigas dores em faixas musicais 

Foi necessária uma década construindo uma trajetória musical conhecida pela mistura de gêneros e por letras que parecem cartas autorais, confissões ou conversas em um divã, para que Luiz Lins apresentasse Os Canalhas Também Envelhecem”, seu segundo álbum de estúdio, um trabalho marcado com amor e a ausência dele, além das marcas deixadas pelas próprias escolhas.

Luiz Lins – Créditos: @cacaio.l

Um personagem entre erros: Luiz Lins entre o amadurecimento e a reconstrução

Nos últimos anos, Luiz Lins construiu uma identidade musical transitando em  diferentes gêneros e sonoridades. “Em Os Canalhas Também Envelhecem”, essa característica ganha uma nova dimensão, já que o artista apresenta uma narrativa que acompanha a trajetória de um único personagem, mas que também representa muitos homens que passaram pela dor de perder ou deixar um amor se perder.

O personagem apresentado no álbum que podemos classificar como conceitual, carrega anos de repetição de padrões, assim vê a necessidade em olhar para o seu próprio passado e compreender como o tempo transforma aqueles que ocuparam esse lugar de “canalha”.

Luiz abraça a realidade e a fantasia

O álbum nasce de vivências e observações pessoais, mas Luiz explica que a construção da narrativa não segue uma lógica documental ou linear. Quando se trata de sentimentos e relações amorosas, a realidade é transformada pela imaginação, permitindo que a escrita não tenha compromisso apenas com os fatos, mas principalmente com aquilo que foi vivido e sentido: “Tudo é autobiográfico, mas a forma como isso é tratado e retratado não é jornalística. Acredito que o ser humano precisa da fantasia, inclusive para lidar com as dores da vida e tudo ali é muito verdadeiro, mas representa um momento que está em constante respiração. Vejo o exagero e a fantasia como ferramentas incríveis para acessar essa pureza dos sentimentos”, conta o artista.

Uma viagem musical por diferentes sentimentos e culturas

A diversidade sonora de “Os Canalhas Também Envelhecem” mistura trap, rap, R&B, bachata, brega, forró, sertanejo, música mexicana e elementos eletrônicos, ampliando os limites da música popular brasileira e criando uma identidade própria para o projeto.

Entre as referências que mais influenciaram o álbum está a música mexicana. O artista encontrou conexões entre essa produção e a música brasileira, especialmente com o sertanejo tradicional: “Às vezes chego a lugares muito confortáveis, como foi com o México, onde consegui fazer vários paralelos interessantes com a música brasileira, principalmente com o sertanejo raiz, mais tradicional. Conheci artistas incríveis, dos mais antigos aos mais atuais, como Pedro Infante, Vicente Fernández, Grupo Firme, Grupo Codiciado e Karim León”, conta o artista.

Toda essa influência latina aparece com mais força na faixa “O Pior Cego”, uma das faixas mais experimentais do projeto: “Nessa faixa isso é mais evidente, mas praticamente todas as composições do álbum nasceram desse processo. Se não surgiram exclusivamente do estudo da música mexicana, foram fortemente influenciadas por ela e pelo mesmo método de pesquisa. Passo um período ouvindo, entendendo e absorvendo o que outras pessoas da minha idade, negras e periféricas, também estão fazendo em outros lugares do mundo, sobretudo nos países latino-americanos”, explica.

Um olhar de fora para o que vem de dentro

Entre todas as faixas do disco, a que mais desafiou Luiz Lins foi a primeira, que carrega o mesmo nome do álbum. Para o artista, o processo exigiu um exercício de humildade: “Incrivelmente, a música mais desafiadora do disco acabou sendo justamente a primeira, ‘Os Canalhas Também Envelhecem’. Os desafios foram psicológicos, precisei aceitar a faixa humildemente como ela é. Não só pelo peso de fazer uma música que carregaria o nome do álbum”, afirma.

A faixa também representa uma quebra sonora dentro do projeto: “É a única que traz um ritmo mais acelerado, amo isso nela. Não foi algo tão natural assim. É uma experiência muito bonita que você vive criando coletivamente: entender, com humildade, o que é melhor para o trabalho e reconhecer que o seu ego nunca pode estar acima disso”, explica Luiz sobre a faixa que dá início ao trabalho.

O caminho entre a expressão como arte e a vulnerabilidade  do indivíduo

Para ele, evitar esses sentimentos pode impedir processos importantes de transformação: “Acho que se endurecer é não processar, e esse é um caminho perigoso. A gente deve aproveitar a oportunidade de estar vivo para sentir ao máximo, se enxergar, se reconhecer e crescer com isso. Se você nunca escoa essas emoções, se leva tudo a sério demais, acaba vivendo uma vida amarga. Se você não tem força suficiente para se ver fraco, qualquer lapada que a vida der faz você cair”, completa.

A curiosidade é também um bússola 

Com “Os Canalhas Também Envelhecem”, o artista transforma cada referência em parte de uma narrativa maior sobre erros, amadurecimento e reconstrução. O artista com dez anos de carreira ainda está em processo de experimentação, mantendo como principal característica a sinceridade emocional que acompanha e cria obras desde o início de sua trajetória.

Ana Carla Dias

Jornalista @anacarladiass

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